Site do MS recomenda cloroquina pra deus e o mundo

– O que está acontecendo?

Na segunda semana de 2021, o Ministério da Saúde lançou sua nova empreitada para ajudar o SARS-COV-2 a matar o povo brasileiro: o TrateCov. Em seu site o aplicativo é apresentado como uma ferramenta online para ajudar os médicos no diagnóstico e tratamento da Covid-19. A plataforma traz ao médico cadastrado um ponto a ponto da doença, guiado por rigorosos critérios clínicos, que ajudam a diagnosticar os pacientes com mais rapidez. Depois disso, o TrateCOV sugere algumas opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada, sugerindo a prescrição de medicamentos. Assim, o diagnóstico sai mais rápido e o tratamento tem início precocemente, contribuindo na redução de internações e óbitos por Covid-19.

No entanto, poucas horas após seu lançamento foi perceptível a real função do sistema: incentivar/forçar a prescrição do “tratamento precoce”. Esse tratamento foi tirado do cu do presidente e é composto por uma série de medicamentos que não tem eficácia alguma para a Covid-19.

Em um detalhe ainda mais mórbido, o aplicativo foi testado em Manaus, cidade que atualmente passa por um colapso no sistema de saúde com dezenas de mortos por falta de oxigenioterapia nos hospitais.

As únicas funções e objetos visíveis, além de coisas como os cálculos de idade e IMC do paciente, existem para exibir a indicação e posologia das seguintes drogas: ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, sulfato de zinco, doxiciclina, zinco e dexametasona. Essa indicação acontece quando o paciente reúne um mínimo de pontos que indicam a probabilidade de ele ter Covid-19. Não importa a combinação, a exposição a risco, a janela de tempo. O que importa é somar os pontos mínimos. Isso contradiz a forma como o governo propagandeia o aplicativo. Segundo o release do Ministério da Saúde, o app é “guiado por rigorosos critérios clínicos” e sugere “opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada”. 

Ao analisar o código fonte do “TrateCov”: https://redcap.saude.gov.br/surveys/?s=7M3XF79KFL pode-se perceber que a Hidroxicloroquina e derivados sempre vão aparecer se houver a possibilidade de seleção de tratamento precoce, independente dos dados anteriores (Imagem 1).

No script do site o medicamento é inclusive citado como “Tratamento precoce” (Figura 2) apesar do Ministro da Saúde, Pazuello, ter declarado recentemente que o MS não recomenda tratamento preventivo.

Isso pode ser observado que a lógica do sistema funciona em Javascript no browser. Isso pode ser acompanhado na aba Network do Developer Tools, que não faz nenhuma requisição ao servidor ao usar o formulário.

Ao analisar o sistema, percebe-se que caso somados 6 pontos na escala de risco deles (Por exemplo: diarréia e dor abdominal já bastam), a indicação será sempre o coquetel desses medicamentos. O que muda é apenas a dose, de acordo com seu IMC.

O sistema foi criado e funciona baseado no no REDCap, que é voltado para criar, armazenar e, na parte servidor, manipular os dados coletados.

Como o MS pode deletar o site após as denúncias, o mesmo foi armazenado para analise posterior:

https://web.archive.org/web/20210114201701/https://redcap.saude.gov.br/surveys/?s=7M3XF79KFL

https://github.com/RodrigoMenegat/autopsia-do-tratecov/

-Evidências Científicas

Em um artigo recente, ainda que atrasado, o médico francês Didier Raoult admite as falhas em seu estudo inicial e assume a ineficácia da cloroquina em tratar a Covid-19.

“The need for oxygen therapy, transfer to ICU and death did not significantly differ between patients who received hydroxychloroquine (HCQ) with or without azithromycin (AZ) and in controls with standard care only. “

O artigo soma-se a uma expressiva produção da literatura que contesta a eficácia e uso do medicamento no tratamento da infecção. O mesmo já foi abandonado como alternativa na maior parte do mundo, mas ainda encontra defensores ferrenhos no Governo brasileiro e em várias clínicas pelo país.

O uso de estratégias digitais para auxiliar o cuidado à saúde não é uma novidade e vem continuamente se aproximando de nossa realidade. No entanto, essas estratégias devem ser pensadas e aplicadas mediante evidências científicas e coordenação com o Sistema de Saúde e profissionais.

Com os avanços em e-Health e m-Health a próxima grande barreira tecnológica parece ser o uso de Inteligências Artificiais refinadas e altamente especializadas para desempenhar as mais diversas funções, em um caminho para a automação dos serviços.

-o que é e-Health?

eHealth é qualquer aplicação da internet, utilizada em conjunto com outras tecnologias de informação, focada em melhorar as condições dos processos clínicos, do tratamento dos pacientes, e dar melhores condições de custeio ao Sistema de Saúde. Ou seja, melhorar o fluxo de informação, através de meios eletrônicos para aprimorar a prestação de serviços e a coordenação dos sistemas de saúde.

-o que é m-Health?

A definição de mhealth, ou mobile health, trata-se da prática médica ou de saúde pública que por meio de tecnologias sem fio atua com trabalhos de prevenção, monitoramento e diagnóstico de doenças.

O desenvolvimento de uma IA dentro do SUS pode ser extremamente valioso para o controle da pandemia, como por exemplo para prever novos surtos ou o manejo de insumos. Claro que não podemos imaginar que essas respostas milagrosas irão surgir do nada, a criação de um sistema tão complexo depende e uma série de dados como: compreensão da transmissibilidade e das populações de risco; estabelecer a história natural da infecção, incluindo período de incubação e taxa de mortalidade; identificar e caracterizar o organismo causador; e, em alguns casos, modelagem epidemiológica para sugerir medidas eficazes de prevenção e controle. Para tal é necessário o fortalecimento de equipes de pesquisadores multiprofissionais capacitados e devidamente financiados.

-Instrumentalização da medicina

Faz-se necessário compreender que tais ferramentas são exatamente isso: ferramentas.

Seu uso e recomendação devem ser sempre subordinados ao olhar crítico, subjetivo e acima de tudo humano de um profissional.

A prática baseada em evidências nos ensina a olhar criticamente e nos guiar sob as melhores evidências para tomada de decisão clínica, seu intuito não é de criar um algoritmo que possa prescrever medicamentos ou cuidados de forma automática.

Essa substituição do trabalhador e terceirização dos serviços para máquinas fere os princípios nos quais o SUS é criado e expõe uma lógica perversa na gestão da Pandemia, a vida não é o foco, mas as aparências.

Uma das estruturas responsáveis por regular os aspectos profissionais da medicina é o  Conselho Federal de Medicina (CFM), uma autarquia que possui atribuições constitucionais de fiscalização e normatização da prática médica. O Conselho até o momento não se pronunciou sobre a situação, o que é uma postura coerente com seu comportamento ao longo da pandemia, em que pouco (ou nada) se mostrou interessado em barrar o uso de substâncias nocivas ou ineficazes no tratamento à Covid-19.

Em uma das poucas menções à prática em seu site o CFM condiciona uso de cloroquina e hidroxicloroquina a critério médico e consentimento do paciente, evitando assim se colocar de forma crítica e clara sobre seu uso, sem proporcionar espaço para debate ou reflexões baseadas em evidências científicas. No cenário catastrófico que vivemos, a omissão já deixa bem claro sua posição entre a vida e a morte.

-Conclusão

#impeachment

Os textos publicados na sessão Opinião não refletem necessariamente o pensamento e a linha editorial da Equipe do podcast Medicina em Debate